O empresário e especialista em soluções ambientais, Marcello José Abbud, destaca que o chorume é um dos líquidos mais agressivos produzidos pela atividade humana, e seu derramamento em aterros mal operados representa uma das formas mais graves de contaminação ambiental registradas no Brasil. Escuro, de odor intenso e composição química altamente complexa, esse efluente gerado pela decomposição dos resíduos sólidos urbanos carrega metais pesados, compostos orgânicos tóxicos, microrganismos patogênicos e amônia em concentrações que inviabilizam o uso da água e do solo por décadas.
O problema está longe de ser residual. O Brasil ainda conta com centenas de lixões ativos e aterros controlados operando sem impermeabilização adequada, segundo levantamentos do próprio setor. Isso significa que, em boa parte do território nacional, o chorume percola livremente pelo solo até atingir o lençol freático, sem qualquer barreira técnica de contenção.
Para entender como esse processo ocorre, quais são os danos reais e o que os municípios podem fazer para prevenir o derramamento, continue lendo.
O que é o chorume e como ele se forma?
O chorume, tecnicamente chamado de lixiviado, é o resultado da combinação entre a umidade intrínseca dos resíduos orgânicos, a água da chuva que infiltra nas células do aterro e os líquidos liberados durante os processos bioquímicos de decomposição da matéria. Segundo Marcello José Abbud, a sua composição varia conforme a idade do aterro, o tipo de resíduo depositado e as condições climáticas locais, o que torna seu tratamento mais complexo do que o de um efluente industrial convencional.
Nos primeiros anos de operação de um aterro, o chorume tende a apresentar alta carga de compostos orgânicos biodegradáveis. Com o passar do tempo, a fração orgânica diminui, mas surgem compostos recalcitrantes, de difícil degradação biológica, além de concentrações elevadas de amônia e metais pesados. Essa mudança de perfil exige que os sistemas de tratamento sejam adaptados ao longo da vida útil do aterro.

Quais são os riscos concretos da contaminação por chorume?
Os riscos associados ao derramamento de chorume vão muito além do impacto visual ou olfativo imediato. Conforme frisa o diretor da Ecodust Ambiental, Marcello José Abbud, a contaminação do lençol freático por chorume pode inutilizar poços artesianos utilizados para abastecimento humano em comunidades rurais e periurbanas, com efeitos que persistem por décadas após o encerramento do aterro. Em alguns casos documentados no Brasil, a remediação de aquíferos contaminados se mostrou técnica e economicamente inviável.
O solo contaminado perde capacidade produtiva, o que afeta diretamente comunidades que dependem de atividades agrícolas nas proximidades das áreas de disposição. Cursos d’água atingidos pelo lixiviado sofrem redução drástica do oxigênio dissolvido, levando à morte de fauna aquática e comprometendo usos múltiplos, como irrigação e recreação. A cadeia de impactos é longa, e os custos sociais raramente são contabilizados nos orçamentos municipais.
Como prevenir o derramamento e garantir o controle do lixiviado?
A prevenção começa na concepção do aterro sanitário, pois, como destaca Marcello José Abbud, a impermeabilização do fundo e das laterais das células com geomembrana de alta densidade é requisito técnico inegociável para qualquer instalação que pretenda operar dentro das normas ambientais brasileiras. Sem essa barreira física, o sistema de drenagem de chorume que vier a seguir terá sua eficácia comprometida desde o início.
O sistema de drenagem interna deve conduzir o lixiviado coletado a lagoas ou tanques de armazenamento temporário, de onde segue para tratamento. As tecnologias disponíveis incluem lagoas de estabilização, reatores biológicos de membranas (MBR), osmose reversa e processos físico-químicos, que podem ser combinados conforme a qualidade exigida para o efluente tratado.
O controle do chorume como indicador de maturidade na gestão de resíduos
Como conclui o empresário e especialista em soluções ambientais, Marcello José Abbud, a forma como um município lida com o lixiviado gerado em seu aterro é um dos indicadores mais honestos do nível de maturidade de sua gestão de resíduos sólidos. Não basta construir um aterro sanitário no papel; é necessário operá-lo com rigor técnico contínuo, manter os sistemas de drenagem desobstruídos, realizar os monitoramentos exigidos em licença e tratar o efluente com a eficiência comprovada em laudos analíticos regulares.
O cenário regulatório brasileiro caminha para exigências cada vez mais estritas de rastreabilidade e comprovação de tratamento adequado do chorume. Municípios que construírem essa capacidade técnica agora não apenas evitarão passivos ambientais custosos, mas também estarão mais preparados para captar recursos federais e estaduais destinados à melhoria do saneamento básico, que têm a adequada gestão de resíduos como um de seus critérios de elegibilidade.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez










